Quando o coração enfraquece, os rins também sofrem
Quando pensamos em insuficiência cardíaca, é comum imaginar apenas um coração que perdeu força para bombear o sangue. O que pouca gente sabe é que, nessa situação, os rins também podem ser diretamente afetados. Na prática clínica, observo que muitos pacientes ficam surpresos ao descobrir que coração e rins funcionam em parceria constante: quando um adoece, o outro quase sempre sente as consequências.
Uma forma simples de entender essa relação é imaginar o coração como a bomba que leva água até uma estação de tratamento. Se essa bomba perde força, menos água chega à estação e todo o sistema passa a funcionar com dificuldade. Com os rins acontece algo parecido. Eles dependem de um fluxo adequado de sangue para filtrar impurezas, eliminar toxinas, controlar a pressão arterial e manter o equilíbrio de líquidos e minerais do organismo.
Quando o coração deixa de bombear sangue de maneira eficiente, os rins recebem menos oxigênio e nutrientes. Ao mesmo tempo, o acúmulo de líquidos provocado pela insuficiência cardíaca aumenta a pressão nas veias e dificulta ainda mais o funcionamento renal. Essa combinação pode levar à piora da função dos rins, retenção de líquidos, aumento da pressão arterial, redução do volume urinário e internações repetidas.
Os sinais de alerta e os avanços no tratamento
Na prática, é comum que pacientes procurem atendimento por falta de ar, inchaço nas pernas, cansaço aos pequenos esforços ou ganho rápido de peso e, durante a investigação, também seja identificada uma piora da função renal. Em outros casos, a alteração nos exames dos rins é uma das pistas de que o coração já não está funcionando adequadamente.
A boa notícia é que a medicina avançou muito nos últimos anos. Hoje dispomos de medicamentos capazes de proteger simultaneamente o coração e os rins. Os inibidores do SGLT2 (dapagliflozina, empagliflozina) revolucionaram o tratamento da insuficiência cardíaca e da doença renal crônica ao reduzirem hospitalizações, retardarem a perda da função renal e diminuírem o risco cardiovascular.
Outro avanço importante foi a finerenona. Inicialmente estudada em pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, ela demonstrou reduzir a progressão da doença renal e o risco de complicações cardiovasculares.
Mais recentemente, novas pesquisas ampliaram nossa compreensão sobre esse medicamento, mostrando resultados promissores também em pessoas com doença renal crônica sem diabetes e reforçando seu potencial em diferentes formas de doença renal. Estudos envolvendo pacientes com diabetes tipo 1 e algumas glomerulopatias também estão em andamento, refletindo um momento de grande evolução na nefrologia.
Prevenção é a melhor forma de proteger coração e rins
Estamos vivendo uma nova era da cardio-nefrologia, na qual os tratamentos deixam de focar apenas em controlar sintomas e passam a modificar a evolução natural da doença, preservando simultaneamente a função cardíaca e renal.
Ainda assim, nenhum medicamento substitui os cuidados diários: controlar a pressão arterial, tratar o diabetes, reduzir o consumo de sal, manter alimentação equilibrada, praticar atividade física de acordo com orientação médica, evitar o tabagismo e usar corretamente as medicações prescritas continuam sendo medidas fundamentais.
Na prática clínica, costumo dizer aos pacientes que coração e rins conversam o tempo todo. Quando um pede ajuda, o outro normalmente já está envolvido. Quanto mais cedo essa conexão é reconhecida, maiores são as chances de preservar a qualidade de vida, reduzir hospitalizações e evitar complicações futuras.
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