Sem mulheres, sem democracia: a ameaça por trás dos discursos contra o voto feminino
*Artigo escrito por Lígia Kunzendorff Mafra, advogada
Há quase um século as brasileiras conquistaram o direito de votar. Pois em pleno ano eleitoral de 2026, voltamos a ouvir, de vozes com assento nas instituições e palanques digitais, que mulheres “votam mal”, que a solteira é um problema a ser corrigido e que a casada deveria apenas acompanhar o voto do marido.
Um partido chegou a registrar em documento programático a defesa de uma “democracia familiar”, com críticas ao sufrágio universal e a sugestão de substituir o voto individual pelo “voto familiar”.
Não se trata de exagero retórico de rede social: são propostas escritas, assinadas, apresentadas ao eleitorado como projeto de país. Diante disso, vale recuperar uma tese que defendi há alguns anos e que, infelizmente, segue atual: sem mulheres, não há democracia.
Ao mergulharmos nas entranhas da história, deparamo-nos com uma complexa teia de relações sociais, econômicas e políticas que moldaram o mundo em que vivemos.
Dentro dessa tapeçaria, o machismo emerge como um fio condutor que, ao longo dos séculos, teceu-se profundamente na estrutura da sociedade, influenciando não apenas as relações de gênero, mas os próprios fundamentos da democracia.
Desde os século XIX tem se demonstrado que a transição de sociedades coletivistas para sociedades baseadas na propriedade privada foi acompanhada pela subordinação feminina.
Com a acumulação de excedentes e a necessidade de controlar a herança, a mulher foi convertida em propriedade do homem — peça na transmissão da linhagem, privada de autonomia e de direitos básicos.
Essa subordinação, enraizada nas estruturas econômicas emergentes, criou as bases da desigualdade de gênero que permeia as sociedades até hoje.
A própria democracia liberal nasceu desse solo. Os teóricos do liberalismo fundamentaram seus argumentos sobre a propriedade privada e os direitos individuais — mas essa concepção era estritamente masculina.
As mulheres ficaram fora do contrato social que fundamenta o Estado de Direito: cidadãs de segunda classe, sem voz nem voto.
Curiosa contradição: o projeto que tem o ideal de igualdade em seu cerne nasce profundamente excludente.
Quem hoje propõe que a mulher devolva seu voto à tutela do chefe de família não está inovando; está apenas tentando restaurar, com verniz de novidade doutrinária, o arranjo original.
O que há de novo é o método.
As chamadas “machoesferas” – ecossistemas digitais de influenciadores que vendem ressentimento como identidade – encontraram nas redes sociais um amplificador sem precedentes.
E encontraram também um público que surpreende: os mais jovens. Pesquisas recentes vêm mostrando que parcela expressiva da Geração Z, sobretudo homens, adere a ideias que gerações anteriores julgavam superadas — da naturalização de papéis subordinados para as mulheres à desconfiança da própria igualdade como valor.
O Relatório Global de Desigualdade de Gênero do Fórum Econômico Mundial, em sua edição de 2025, estimou que, no ritmo atual, o mundo levará ainda mais de um século – cerca de 123 anos – para fechar a distância entre homens e mulheres; na dimensão do empoderamento político, o abismo é o mais profundo de todos.
O retrocesso, portanto, não é hipótese: é tendência mensurada, com uma geração inteira em disputa.
Esse fenômeno evidencia a complexidade da luta feminista, pois não se trata apenas de confrontar opressões externas, mas também as internalizadas.
O sistema social, arraigado em bases patriarcais, condiciona as próprias mulheres a reproduzir os discursos que sustentam sua subjugação, na glorificação de papéis tradicionais, na censura àquelas que desafiam as normas, e agora também no engajamento de eleitoras com projetos que propõem, literalmente, devolver seu voto a outrem.
Quando a doutrina da tutela é apresentada como defesa da família, ela recruta as suas próprias vítimas.
É preciso dizer com clareza o que está em jogo. As mulheres são a maioria do eleitorado brasileiro – mais da metade das pessoas aptas a votar.
Deslegitimar o voto feminino não é uma opinião polêmica entre tantas: é um ataque à base aritmética e moral da democracia.
A Constituição e a legislação eleitoral, incluindo a lei que tipificou a violência política de gênero, existem precisamente porque o país já reconheceu que discursos assim não são debate: são método de exclusão.
A sub-representação política das mulheres, que persiste apesar dos avanços, mostra que a porta de entrada segue estreita; o que se propõe agora é trancá-la de vez.
A democracia, para ser efetiva e fiel ao bem comum, deve transcender as limitações impostas pelo machismo. Isso implica garantir condições iguais de acesso e participação nas instituições, mas também combater as estruturas de poder que sustentam o desequilíbrio, inclusive as novas, algorítmicas, que radicalizam meninos em série.
Educação para a igualdade, políticas afirmativas e responsabilização de quem transforma misoginia em plataforma eleitoral são passos incontornáveis.
Escrevi, tempos atrás, que a democracia plena é aquela que abraça a diversidade e assegura as mesmas oportunidades a todos, independentemente de gênero. Precisei atualizar o texto, mas não a tese.
Quando o voto da mulher volta a ser tratado como concessão revogável, a resposta não pode ser o silêncio de quem julga a batalha vencida. Sem mulheres, não há democracia. E, ao que tudo indica, será preciso repetir isso por mais algum tempo.
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