A nova obsessão: parecer rico e viver de aparências

A nova obsessão: parecer rico e viver de aparências

Perfumes, roupas e tendências prometem aparência de riqueza. Mas o desejo de parecer rico pode custar a própria identidade
Imagem gerada por IA

Em algum momento, ser rico deixou de ser uma condição financeira e virou uma aparência. Não existe mais apenas um perfume. Existe perfume com cheiro de rica. Não basta uma pele bem cuidada; ela precisa ter pele de rica.

A cozinha é de rica. A unha é de rica. O cabelo é de rica. A roupa é de rica. Até viajar ganhou uniforme: agora existe o aerolook, como se embarcar num avião exigisse um figurino específico para convencer desconhecidos de que você pertence à classe executiva, mesmo sentado na 42F.

Confesso que observo esse fenômeno com curiosidade. Mais do que isso: fico tentando descobrir onde tudo começa. Quem acorda um dia e decide que uma torneira preta é “de rica”? Ou que, de repente, todo mundo resolveu jogar tênis, como se o esporte tivesse sido inventado na semana passada? Spoiler: não foi.

Como nasce uma tendência que, poucos meses depois, ocupa milhões de casas, armários, academias e perfis exatamente da mesma maneira? Às vezes tenho a impressão de assistir a um enorme telefone sem fio. Alguém inventa. Outro copia. Um terceiro ensina a copiar melhor. Quando nos damos conta, uma multidão inteira está repetindo o mesmo roteiro, convencida de que encontrou um estilo próprio.

O mais curioso é que as tendências já não nos dizem apenas o que comprar. Elas passaram a dizer quem deveríamos ser.

Quando a tendência substitui a identidade

A moda sempre existiu. E ainda bem. Moda é arte, criatividade, humor, cultura e expressão. O problema não está em seguir uma tendência. Está em terceirizar a própria identidade.

É difícil não ser capturado pelas marcas e pela sedução da novidade. Sem perceber, já desejamos aquilo que ontem nem sabíamos que existia. Mais inquietante é quando deixamos de desconfiar do próprio desejo. Passamos a querer porque todos querem, a gostar porque todos gostam e, aos poucos, já não sabemos separar o que escolhemos daquilo que aprendemos a desejar.

Deve ser por isso que eu amo observar e estar perto de crianças que ainda conseguem se vestir de si mesmas. Daquelas que saem de galocha e guarda-chuva num dia de sol, misturam estampas impossíveis, colocam fantasia para ir ao supermercado e contrariam a família inteira sem fazer o menor esforço. Elas ainda não aprenderam que, para serem aceitas, precisam representar alguma coisa.

Ah, se conseguíssemos entender que o mais interessante em alguém costuma nascer justamente dessa liberdade de ser quem se é, o mundo seria bem mais colorido.

A autoestima dos cinco anos

Minha mãe conta que, quando eu tinha cinco anos, usava pulseiras coloridas até o cotovelo. Um dia, ela disse:

— Vão achar que você é uma palhacinha.

E eu, com toda a maturidade dos meus cinco anos, respondi:

— Problema é deles. Eu estou me achando linda.

Sinto saudade daquela autoestima dos cinco anos, sustentada apenas pelo meu próprio gosto estético. Eu me achava linda com pulseiras coloridas até o cotovelo, mesmo que elas mal me deixassem dobrar os braços. Não me perguntava se estava na moda, se chamaria atenção ou se alguém aprovaria. Eu simplesmente gostava.

Em algum lugar do caminho, deixamos de perguntar se gostamos. Passamos a calcular se seremos aprovados, que imagem transmitiremos e o que os outros pensarão. Eu sei: o desejo de aceitação é inerente ao ser humano. A diferença é que ele cresceu até ocupar um espaço descomunal. Hoje, antes mesmo de descobrir o que queremos, já estamos preocupados com a impressão que isso causará.

O personagem perfeito

Na clínica, vejo o quanto essa liberdade vai desaparecendo. Construir uma identidade exige experimentar, errar, sustentar escolhas, suportar críticas e aceitar que nem todo mundo gostará de quem somos. Aderir a um personagem pronto é bem mais simples — e também muito mais adoecedor.

As redes não vendem apenas roupas, perfumes ou objetos. Vendem personagens completos: a mulher rica, a mãe perfeita, a pessoa elegante, o profissional bem-sucedido. Há um modelo pronto até para viajar, envelhecer e arrumar a mesa do café da manhã.

Estamos ficando com preguiça até de parecer nós mesmos. Elaborar um gosto, um estilo e uma maneira de viver exige tempo. É mais fácil abrir o Instagram e alugar uma identidade pronta.

Há também os “do contra”. Nem mesmo quem faz questão de anunciar que não segue moda escapa necessariamente desse mecanismo. Uns obedecem à tendência. Outros obedecem à obrigação de contrariá-la. Caminham por filas diferentes, mas acabam no mesmo lugar: a necessidade de convencer os outros — e, às vezes, a si mesmos — de quem são.

Nunca imaginei que ouviria alguém recomendar um perfume porque ele dá “cheiro de rica”. Escolher uma fragrância porque ela nos agrada, desperta uma lembrança ou combina conosco é uma coisa. Usá-la para fabricar uma impressão de riqueza é outra. Nunca escutei algo tão pobre.

A maior riqueza hoje é continuar reconhecendo o próprio desejo em meio a tanto barulho. Quando já não conseguimos distinguir aquilo de que realmente gostamos daquilo que passamos a desejar, a demanda fabricada pelo mercado começa a ocupar o lugar da nossa própria vontade. Aos poucos, vamos desaparecendo de nós mesmos.

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