Rivotril e zolpidem: por que tanta gente já não dorme sem eles?

Rivotril e zolpidem: por que tanta gente já não dorme sem eles?

Imagem ilustrativa gerada por Inteligência Artificial (IA)

A noite estava agradável. Mesa posta, conversa boa, aquele momento em que ninguém quer ir embora. Foi então que uma das amigas abriu a bolsa, remexeu por alguns segundos e tirou uma cartela.

“Alguém tem um Rivotril? O meu acabou.”

Três bolsas se abriram ao mesmo tempo.

“Eu tenho. O meu é de 0,5mg.”

“O meu também. Mas essa dose não faz mais nada em mim. Tomo 1mg.”

Uma terceira olhou para as outras com uma expressão que misturava cansaço e certo orgulho.

“1mg? Pra mim 2mg é o mínimo. Com 1mg eu mal consigo relaxar.”

Fez-se um silêncio de concordância. Como se doses mais altas fossem prova de uma vida mais intensa, de noites mais pesadas, de um peso que as outras ainda não entendiam carregar.

Então alguém virou para mim.

“E você, Raigna? O que você toma?”

“Nada”, respondi. “Não tomo nenhum medicamento para dormir.”

A mesa parou.

Foi o mesmo silêncio de quando alguém diz que não tem celular. Ou que não bebe café. Aquele olhar que mistura espanto com leve desconfiança. Eu era o ET.

Essa cena é tão comum que virou padrão. E não tem nada de normal em uma pessoa só conseguir dormir à base de sedativos e hipnóticos.

Os números que ninguém quer ver

O Brasil vive o que especialistas já chamam abertamente de epidemia.

O consumo de zolpidem cresceu de forma significativa no país, com mais de 17,7 milhões de caixas vendidas em 2023, um aumento de 30% em apenas cinco anos, segundo dados da Anvisa.

A Anvisa chegou a alterar as regras de prescrição do medicamento, exigindo receita azul para qualquer venda, seguindo o mesmo critério dos psicotrópicos controlados.

A maioria dos casos de dependência de zolpidem envolve mulheres entre 35 e 50 anos, frequentemente com ansiedade ou depressão associadas.

Os benzodiazepínicos, classe à qual pertence o Rivotril, têm trajetória semelhante. Nos últimos anos, o consumo de benzodiazepínicos aumentou no Brasil, impulsionado em parte pela pandemia, que elevou os índices de distúrbios mentais.

Dados sugerem que até 2% da população adulta brasileira é usuária de clonazepam, possivelmente como hipnosedativo.

São milhões de pessoas.

E a maioria não sabe exatamente o que está acontecendo dentro do seu organismo enquanto dorme.

O que esses medicamentos fazem de verdade

O zolpidem e os benzodiazepínicos atuam potencializando o efeito do GABA, o principal neurotransmissor inibidor do sistema nervoso central.

Em linguagem simples: eles aumentam o sinal de “desacelera” no cérebro.

O resultado imediato é a sedação. A pessoa adormece mais rápido. Acorda menos vezes. Parece que funcionou.

Mas existe uma diferença fundamental entre sedação e sono reparador.

O sono natural passa por ciclos. Cada ciclo inclui fases de sono leve, sono profundo e sono REM.

É no sono profundo que o hormônio do crescimento é liberado, que os tecidos se recuperam, que o sistema imunológico se reconstitui.

É no sono REM que a memória é consolidada e o cérebro processa as emoções do dia.

Os sedativos hipnóticos suprimem essas fases mais profundas.

A pessoa dorme, mas não descansa da mesma forma.

Acorda sem a sensação de ter recuperado.

Com o tempo, o cansaço acumula mesmo dormindo todas as noites.

E o organismo aprende.

Com uso contínuo, desenvolve tolerância: precisa de doses maiores para obter o mesmo efeito.

É exatamente a competição que eu presenciei naquela roda de amigas, traduzida em bioquímica.

O que acontece quando você tenta parar

Aqui está o ponto que transforma o uso ocasional em dependência.

A interrupção brusca pode desencadear sintomas intensos de abstinência, como tremores, sudorese, insônia e ansiedade intensa.

A insônia que volta é frequentemente mais intensa do que a original.

A conclusão imediata é:

“Preciso do remédio. Sem ele fico pior.”

Não necessariamente.

O que acontece é que o sistema nervoso, que foi suprimido por meses ou anos, reage com hiperatividade quando o freio é retirado de uma vez.

É uma resposta de abstinência, não uma confirmação de que o problema original piorou.

Por isso a suspensão abrupta nunca é o caminho.

E por isso o desmame precisa de orientação profissional.

Quando esses medicamentos são, de fato, necessários

Precisamos ser honestos aqui.

O zolpidem, o clonazepam e outros medicamentos dessa classe não foram desenvolvidos à toa.

Eles têm indicações legítimas, estudos que os sustentam e situações clínicas onde o benefício é real e documentado.

Insônia aguda grave associada a luto, trauma ou hospitalização.

Transtorno de ansiedade com componente de insônia intratável por outras vias.

Epilepsia e outras condições neurológicas.

Situações de crise em que a privação de sono representa risco imediato à saúde.

Nesses contextos, prescritos por neurologistas ou psiquiatras, em doses adequadas, por períodos definidos e com plano de desmame desde o início, esses medicamentos fazem sentido clínico.

O problema não é o medicamento.

É o uso crônico, sem revisão da indicação, sem plano de saída, em pessoas que começaram por uma noite difícil e chegaram a anos de dependência sem perceber como.

O desmame existe e funciona

Ninguém deveria simplesmente parar de tomar esses medicamentos por conta própria.

Mas também ninguém precisa ficar neles para sempre.

O período para começar a vencer uma dependência é de aproximadamente três meses, segundo o Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos Estados Unidos.

O processo envolve redução gradual da dose, frequentemente com substituição temporária por um benzodiazepínico de meia-vida mais longa para suavizar a retirada, e suporte para tratar a causa original do problema de sono.

Isso não é uma conversa para ter sozinha.

É uma conversa para ter com um neurologista ou psiquiatra que conheça o seu histórico.

O que a medicina integrativa agrega nesse processo é o suporte paralelo: magnésio nas formas adequadas, melatonina em dose fisiológica, higiene do sono rigorosa e endereçamento das causas que geraram a insônia antes do remédio.

Esses elementos não substituem o acompanhamento médico.

Eles criam o terreno para que o desmame seja mais tolerável e para que o sono se reorganize sem precisar de sedação química.

O que está acontecendo com o nosso sono

A epidemia de medicamentos para dormir não aconteceu por acaso.

Vivemos numa cultura que valoriza a produtividade acima do descanso.

Que normaliza dormir pouco e acordar cedo como virtude.

Que interpreta a dificuldade de desligar como fraqueza, não como sinal de um sistema nervoso sobrecarregado.

E quando o corpo não aguenta mais e a insônia se instala, a saída mais rápida está na prateleira da farmácia.

O problema é que rápido e correto raramente são a mesma coisa quando se trata de sono.

Em 30 anos de farmácia magistral, acompanhei de perto a trajetória de muitas pessoas que começaram com meio comprimido para passar uma noite difícil e chegaram a doses que precisavam de prescrição especial para conseguir.

Nenhuma delas planejou isso.

Nenhuma achava que estava se colocando em risco.

O remédio na bolsa de todo mundo não é sinal de uma geração fraca.

É sinal de uma geração que não foi ensinada a cuidar do sono antes que ele quebrasse.

Seguimos…

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